A planta tem um gel interno, que integra água e um caldo de aminoácidos, vitaminas, minerais, enzimas e os chamados polissacarídeo
Por Redação com assessoria em 13 de fevereiro, 2026 às 07h16.
Um curativo que protege o machucado, acompanha os movimentos do corpo sem romper e possibilita as trocas gasosas, feito com uma planta utilizada de forma medicinal há milênios e ‘da casa de vó’: a Aloe Vera, também conhecida como babosa.
Pesquisador da UFPR cria curativo de babosa. (Foto: Marcos Solivan/Sucom/UFPR)
Essa foi a aposta premiada do pesquisador Fernando Miguel Stelmach Alves, do Departamento de Farmácia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), que iniciou o projeto após ver a ferida de um amigo. Ele cursa o terceiro ano de Farmácia e integra o projeto de iniciação científica Desenvolvimento de filmes e hidrogéis para desordens cutâneas, orientado pela professora Luana Mota Ferreira, do Centro de Estudos de Biofarmácia (CEB) da UFPR, em Curitiba.
Os resultados da primeira fase dessa pesquisa foram publicados em um artigo, que recebeu o 38º Prêmio Paranaense de Ciência e Tecnologia, da Secretaria de Estado da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior do Paraná (Seti), na categoria Estudante de Graduação.
Extratos da babosa são a base da proposta
Planta típica de casa de vó, a babosa é composta por uma casca externa verde, uma seiva amarela por baixo (potencialmente tóxica) e um gel interno, que integra água e um caldo de aminoácidos, vitaminas, minerais, enzimas e os chamados polissacarídeos. Eles são carboidratos complexos, formados por longas cadeias de açúcares, responsáveis por boa parte das propriedades hidratantes, cicatrizantes e moduladoras do sistema imune atribuídas à babosa. E é aí onde entra a pesquisa de Fernando.
O discente investigou se esses compostos poderiam ir além do efeito terapêutico tradicional e cumprir uma função estrutural em adesivos para machucados. A ideia foi usar o extrato da planta como parte do próprio material do curativo, substituindo plastificantes sintéticos, e o resultado foi o desenvolvimento de filmes finos, naturais e bioadesivos, capazes não apenas de proteger a ferida, mas de contribuir com a cicatrização.
Fernando explica que materiais ricos em polissacarídeos como a babosa conferem maleabilidade porque essas moléculas se comportam como fios longos e flexíveis, capazes de se mover, se dobrar e reter água sem se romper, já que são formadas por longas cadeias de açúcares ligadas entre si.
O aluno trabalhou com os principais polissacarídeos presentes no gel da Aloe vera junto a dois agentes muito usados pela indústria farmacêutica: a goma gelana, produzida por bactérias, e a carragena, extraída de algas vermelhas. A partir dessas substâncias, desenvolveram-se filmes finos por um método simples de laboratório, no qual os componentes são dissolvidos em água aquecida e depois secos até formar uma película contínua.
O diferencial do experimento foi incorporar o extrato de babosa à formulação não apenas como ativo cicatrizante, mas como parte do material, permitindo que os polissacarídeos da planta interagissem com as gomas e conferissem capacidade de ajuste ao curativo.
Resultados em laboratório são promissores
Os testes, ainda feitos em laboratório, mostraram que os dois materiais se comportam de formas distintas. Os filmes à base de carragena apresentaram maior elasticidade e capacidade de absorção de líquidos, características importantes para feridas que liberam secreção. Já os filmes de goma gelana se mostraram mais rígidos e resistentes, oferecendo maior proteção mecânica. Mas, nos dois casos, a presença do extrato de babosa melhorou a adesão à pele e contribuiu para a manutenção de um ambiente úmido, condição importante para a cicatrização. Segundo Alves, o projeto abre caminho para produtos biocompatíveis, sustentáveis e acessíveis.
“Os materiais naturais têm sido cada vez mais explorados no campo farmacêutico. Além disso, nossa formulação visa reduzir o número de componentes envolvidos na fabricação dos curativos”, acrescenta a orientadora.
Os próximos passos do estudo envolvem a realização de testes de biocompatibilidade e avaliações em modelos in vivo, etapas necessárias para confirmar a segurança e a eficácia dos filmes em condições mais próximas do uso real. A equipe também pretende investigar a incorporação de outros compostos terapêuticos às películas, explorando efeitos sinérgicos e ampliando as aplicações do material no cuidado de feridas.
Para os pesquisadores, o principal desafio em trabalhar com ativos naturais é a complexidade de suas matrizes. Diferente do que ocorre nos estudos com ativos sintéticos, em que se avalia apenas uma substância, uma planta tem vários ativos que, somados, proporcionam seu efeito, e todos eles precisam ser avaliados.
“Nossa próxima missão é caracterizar fitoquimicamente esse extrato e dar um foco mais terapêutico para a formulação, com avaliações de performance in vitro e in vivo e determinar a permeação cutânea desses ativos”, diz Ferreira.Publicado primeiro em Banda B » Babosa na ferida? Pesquisador da UFPR desenvolve curativo cicatrizante com base na Aloe Vera -
fonte:
https://www.bandab.com.br/saude/pesquisador-da-ufpr-desenvolve-curativo-a-base-de-babosa/



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